Índice
- 1 O que são os agonistas de GLP-1 e GIP
- 2 O que os estudos clínicos mostraram
- 3 Benefícios além do peso
- 4 Efeitos adversos: o que esperar
- 5 Quem pode usar: critérios de indicação
- 6 Por que o acompanhamento médico é parte do tratamento, não um detalhe
- 7 Situação regulatória no Brasil
- 8 Uma observação final
- 9 Referências
Nos últimos dois anos, tirzepatida e semaglutida tornaram-se as palavras mais buscadas no Google relacionadas à saúde no Brasil. Nas redes sociais, relatos de perda de peso expressiva se multiplicam. Nas farmácias, o estoque some antes de chegar às prateleiras. Em grupos de WhatsApp, circulam receitas e doses sem nenhuma supervisão médica.
A popularidade dessas medicações é compreensível — os resultados dos estudos clínicos são realmente impressionantes, e a promessa de emagrecer com uma injeção semanal mobiliza quem tentou de tudo. Mas o que está acontecendo no mercado brasileiro é, em boa parte, o uso de medicamentos de alta potência e efeitos sistêmicos relevantes como se fossem suplementos vitamínicos.
Este artigo explica o que a ciência diz sobre essas medicações, o que os estudos clínicos mostraram de verdade — e por que o acompanhamento médico não é burocracia, é parte essencial do tratamento.
O que são os agonistas de GLP-1 e GIP
GLP-1 (glucagon-like peptide-1) e GIP (glucose-dependent insulinotropic polypeptide) são hormônios produzidos naturalmente pelo intestino em resposta à alimentação. Eles estimulam a secreção de insulina, reduzem a produção de glucagon, retardam o esvaziamento gástrico e atuam no cérebro regulando a sensação de saciedade e o apetite.
Os medicamentos dessa classe são análogos sintéticos desses hormônios — moléculas desenvolvidas para imitar e potencializar seus efeitos por períodos mais longos do que os hormônios naturais conseguem.
A semaglutida (Ozempic® para diabetes, Wegovy® para obesidade) é um agonista de GLP-1. A tirzepatida (Mounjaro®, aprovado no Brasil para diabetes tipo 2 em setembro de 2023) é uma molécula de ação dupla — atua nos receptores de GLP-1 e de GIP simultaneamente. Essa ação dual é o que diferencia a tirzepatida das moléculas anteriores e explica parte de sua eficácia superior nos estudos.
O que os estudos clínicos mostraram
Os resultados das pesquisas com tirzepatida são, genuinamente, um marco no tratamento farmacológico da obesidade. Vale conhecê-los com precisão — sem exagero, mas sem minimização.
SURMOUNT-1 (New England Journal of Medicine, 2022)
O principal estudo de fase 3 da tirzepatida para obesidade sem diabetes. Envolveu 2.539 adultos com IMC acima de 30 (ou acima de 27 com pelo menos uma comorbidade), durante 72 semanas. Todos os grupos receberam aconselhamento regular sobre estilo de vida.
Os resultados nas doses de 5 mg, 10 mg e 15 mg foram de perda média de 15%, 19,5% e 20,9% do peso corporal, respectivamente — contra 3,1% no grupo placebo. Na dose de 15 mg, 57% dos participantes atingiram redução de 20% ou mais do peso, e 36% reduziram 25% ou mais. Em comparação, resultados dessa magnitude eram anteriormente associados apenas à cirurgia bariátrica.
Além da perda de peso, foram observadas melhorias em pressão arterial, perfil lipídico, glicemia e circunferência abdominal. Entre os participantes com pré-diabetes no início do estudo, 95% reverteram para normoglicemia com tirzepatida, contra 62% no placebo.
SURMOUNT-4 (JAMA, 2024)
Investigou o que acontece quando o tratamento é interrompido. Participantes que usaram tirzepatida por 36 semanas e perderam em média 21% do peso foram randomizados para continuar o medicamento ou trocar por placebo. O grupo que continuou perdeu mais 5,5% adicionais. O grupo que parou recuperou 14% do peso perdido ao longo de 52 semanas.
Esse estudo confirma o que se sabia da fisiopatologia da obesidade: ela é uma doença crônica, não um problema pontual que se resolve com um ciclo de medicação. A interrupção sem acompanhamento e sem mudança de hábitos tende a resultar em reganho.
SURMOUNT-5 (New England Journal of Medicine, 2025)
O primeiro ensaio clínico randomizado que comparou diretamente tirzepatida e semaglutida. Com 751 participantes adultos com obesidade sem diabetes, durante 72 semanas, a tirzepatida mostrou perda média de 20,2% do peso, contra 13,7% com semaglutida — uma diferença de 6,5 pontos percentuais. Em termos absolutos: 22,8 kg versus 15 kg, em média. A tirzepatida também foi superior em redução de circunferência abdominal: 18,4 cm contra 13 cm.
O perfil de segurança foi semelhante entre os grupos — sintomas gastrointestinais leves a moderados foram os eventos adversos mais frequentes em ambos.
Benefícios além do peso
O impacto dessas medicações vai além da balança. A pesquisa acumulada aponta benefícios em múltiplas dimensões metabólicas:
- Controle glicêmico: redução expressiva da hemoglobina glicada em pacientes com diabetes tipo 2, com alguns atingindo remissão do diabetes
- Risco cardiovascular: o estudo SELECT (2023), com semaglutida, demonstrou redução de 20% em eventos cardiovasculares maiores em pacientes obesos sem diabetes — o primeiro medicamento antiobesidade a demonstrar esse benefício em ensaio clínico
- Apneia do sono: o SURMOUNT-OSA mostrou redução de até 50% no índice de apneia com tirzepatida, com resultados comparáveis ao CPAP em alguns pacientes
- Esteatose hepática: estudos preliminares mostram regressão da esteatose e redução da fibrose hepática
- Doença renal crônica: benefícios nefroprotetores estão sendo investigados em estudos em andamento
Efeitos adversos: o que esperar
Nenhuma medicação com esse nível de eficácia vem sem efeitos colaterais. Conhecê-los é parte do processo de decisão informada:
Efeitos gastrointestinais
São os mais comuns e os que mais levam à descontinuação. Náusea, constipação, diarreia e vômitos ocorreram em 17% a 33% dos participantes nos estudos, dependendo da dose. A maioria dos casos é de intensidade leve a moderada e tende a diminuir após as primeiras semanas. O escalonamento gradual de dose — começando com doses menores e aumentando progressivamente — é o principal mecanismo para minimizar esses efeitos.
Perda de massa muscular
Um aspecto que merece atenção: parte do peso perdido é massa muscular, não apenas gordura. Nos estudos com DEXA, a proporção de massa magra perdida variou. A atividade física resistida durante o tratamento é importante para preservar massa muscular — e é uma das razões pelas quais o acompanhamento multiprofissional faz diferença.
Colecistite
Casos de inflamação da vesícula biliar foram mais frequentes nos grupos tratados do que no placebo, embora com incidência baixa (menor que 1%). Perda de peso rápida em geral aumenta o risco de cálculos biliares — não é um efeito exclusivo dessas medicações.
Pancreatite
Foi relatada em casos isolados nos estudos. Pacientes com histórico de pancreatite, cálculos biliares não tratados ou triglicerídeos muito elevados têm risco aumentado e precisam de avaliação cuidadosa antes de iniciar o tratamento.
Tireóide
Em estudos com roedores, agonistas de GLP-1 foram associados a tumores de células C da tireoide. Esse achado não foi reproduzido em humanos, mas por precaução, essas medicações são contraindicadas em pessoas com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM2).
Quem pode usar: critérios de indicação
As medicações desta classe têm critérios de indicação baseados em evidências. De forma geral:
- IMC ≥ 30 kg/m², ou
- IMC ≥ 27 kg/m² com pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso (hipertensão, diabetes tipo 2, dislipidemia, apneia do sono, doença cardiovascular)
Isso após resposta insuficiente às mudanças de estilo de vida. Não são medicamentos de primeira linha para qualquer pessoa que queira emagrecer alguns quilos.
Contraindicações incluem: histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide, NEM2, pancreatite crônica, gravidez ou planejamento de gravidez próximo, e hipersensibilidade conhecida ao medicamento.
A avaliação dessas condições exige anamnese detalhada, exame físico e, frequentemente, exames laboratoriais — o que só é possível numa consulta médica adequada.
Por que o acompanhamento médico é parte do tratamento, não um detalhe
Aqui está o ponto central deste artigo.
A tirzepatida e os demais GLP-1 são medicamentos eficazes e relativamente seguros quando usados no contexto correto. Quando usados fora desse contexto — sem avaliação prévia, sem monitoramento, sem ajuste de dose individualizado — os riscos aumentam e os resultados tendem a ser piores.
O que o acompanhamento médico garante
Avaliação das contraindicações antes de iniciar: histórico familiar de tireoide, função pancreática, cálculos biliares, uso de outros medicamentos que interagem — tudo isso precisa ser investigado antes da primeira dose.
Escalonamento de dose correto: a dose começa em 2,5 mg semanais e aumenta gradualmente a cada 4 semanas, até a dose eficaz máxima tolerada. Pular essa progressão aumenta drasticamente os efeitos gastrointestinais e a taxa de abandono.
Monitoramento laboratorial: função renal, hepática, glicemia (especialmente em diabéticos em uso de insulina ou sulfonilureias, com risco de hipoglicemia), perfil lipídico e função tireoidiana precisam ser acompanhados.
Avaliação da composição corporal: o objetivo não é só perder peso — é perder gordura e preservar músculo. Isso exige acompanhamento com atividade física orientada e, idealmente, avaliação de composição corporal ao longo do tratamento.
Planejamento para o longo prazo: como o SURMOUNT-4 mostrou, a interrupção sem estratégia tende ao reganho. O médico e a equipe multiprofissional ajudam a construir os hábitos que vão sustentar o resultado quando o medicamento eventualmente for reduzido ou suspenso.
Manejo dos efeitos adversos: náusea intensa, constipação que não cede, dor abdominal — saber distinguir o que é esperado do que é sinal de alerta exige acompanhamento de quem conhece o histórico do paciente.
O problema da automedicação e das “receitas de grupo”
Circulam nas redes sociais e grupos de mensagens esquemas de uso com doses padronizadas, sem nenhuma consideração pelo perfil individual de quem vai usar. O problema não é só a ausência de avaliação prévia das contraindicações — é que a dose eficaz e tolerada varia significativamente entre pessoas. Escalonamento rápido demais gera abandono por intolerância. Dose insuficiente não traz resultado. Dose excessiva sem progressão gradual causa efeitos colaterais evitáveis.
Além disso, esses medicamentos custam caro. Abandonar o tratamento por náusea intensa — evitável com escalonamento correto — é perda financeira e de resultado.
Situação regulatória no Brasil
A tirzepatida (Mounjaro®) foi aprovada pela Anvisa em setembro de 2023 para tratamento do diabetes tipo 2. O uso para obesidade sem diabetes é, no momento, off-label no Brasil — aguarda aprovação específica para essa indicação, que a Eli Lilly já submeteu à Anvisa. Isso não impede a prescrição médica, que pode indicar medicamentos em uso off-label quando há evidência científica consistente e o benefício supera o risco para o paciente específico — mas exige que o médico documente essa avaliação e que o paciente seja informado.
A semaglutida na dose de 2,4 mg (Wegovy®) para obesidade ainda não estava disponível comercialmente no Brasil no momento da publicação deste artigo — a versão disponível é o Ozempic®, aprovado para diabetes.
Uma observação final
A tirzepatida e os GLP-1 representam um avanço real no tratamento da obesidade — um campo que, por décadas, teve poucas ferramentas farmacológicas eficazes. Os dados dos estudos clínicos são consistentes e relevantes clinicamente.
Mas medicamento eficaz não é medicamento simples. A eficácia observada nos ensaios clínicos foi obtida com acompanhamento rigoroso, avaliação prévia, escalonamento correto de dose e suporte comportamental — não com injeção comprada pela internet e esquema passado de grupo de WhatsApp.
Se você tem obesidade e está considerando iniciar esse tipo de tratamento, o caminho é uma consulta médica. O médico avalia se você é candidato, quais são as contraindicações no seu caso, qual medicamento faz mais sentido para o seu perfil, e como acompanhar o tratamento de forma segura e eficaz.
O medicamento é uma ferramenta. Quem dirige a ferramenta é o profissional capacitado para isso.
Referências
- Jastreboff AM, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. New England Journal of Medicine. 2022;387:205-216. doi:10.1056/NEJMoa2206038
- Garvey WT, et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity in people with type 2 diabetes (SURMOUNT-2). Lancet. 2023;402(10402):613-626. doi:10.1016/S0140-6736(23)01200-X
- Wadden TA, et al. Tirzepatide after intensive lifestyle intervention in adults with overweight or obesity: the SURMOUNT-3 phase 3 trial. Nature Medicine. 2023;29:2909-2918. doi:10.1038/s41591-023-02597-w
- Aronne LJ, et al. Continued Treatment With Tirzepatide for Maintenance of Weight Reduction in Adults With Obesity: The SURMOUNT-4 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2024;331(1):38-48. doi:10.1001/jama.2023.24945
- Lincoff AM, et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes (SELECT). New England Journal of Medicine. 2023;389:2221-2232.
- Carvalho JM, et al. SURMOUNT-5: Tirzepatida versus Semaglutida para tratamento da obesidade. New England Journal of Medicine. 2025. (publicado em maio de 2025, Congresso Europeu de Obesidade)
- Santos KS, et al. Avaliação do efeito da tirzepatida na perda de peso: revisão sistemática. Revista Brasileira de Obesidade, Nutrição e Emagrecimento. 2025. Disponível aqui
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